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Psicóloga clínica, especialista em teoria e clínica psicanalítica. E-mail para contato: mlmpsicanalise@gmail.com

20 de out. de 2011


A histeria masculina



 
Ao escutar um paciente histérico, especialmente um homem, imaginemo-lo como um garotinho assustado, encolhido num canto do aposento, com os olhos arregalados e protegendo a cabeça com as mãos, como que para aparar a violência de um castigo eventual.

J. -D. Nasio

Nos primórdios dos estudos da histeria, acreditava-se que se tratava de uma doença feminina. Durante anos, foi dada muito pouca atenção à histeria masculina. Hoje, a clínica comprova que ela é quase tão freqüente nos homens quanto nas mulheres. O sofrimento histérico da atualidade está mais discreto, raramente encontramos “crises” como as de antigamente, chamadas de “estigmas histéricos”, contudo, o momento histórico-cultural trouxe outras mudanças na vida dos histéricos.
A sociedade contemporânea vive um momento de declínio das referências masculinas. As instâncias paternas, estruturantes, que constituíam a identidade masculina, sofreram uma queda.
A religião, a autoridade, a tradição, a lei paterna; estão desmoronando. As religiões estão sofrendo críticas e questionamentos. Foram descobertas inúmeras atrocidades que a Igreja Católica Apostólica Romana cometia, em nome de Deus. O Protestantismo que questionava os dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana vem abusando da ignorância dos fiés, absolvendo criminosos, fazendo deles pastores e extorquindo dinheiro das massas para aplicar em causa própria. São tantas mazelas mundanas em nome da religião, que esta, como interdito de outrora, abriu espaço para o perdão sem fronteiras. Se Deus perdoa tudo, por que se responsabilizar por atos? Teria então, Deus, deixado de dar limites, deixando de representar a interdição simbólica paterna e se tornado um pai permissivo?
E o que falar das autoridades? Elas deveriam colocar ordem na sociedade, não é mesmo? Os políticos que o povo escolhe para representá-lo, em sua maioria, parecem corruptos. As leis só se aplicam aos menos favorecidos e pouca punição existe para aqueles que não cumprem as regras da sociedade. Guerras são travadas em nome do poder econômico. Chefes de estado insistem em usurparem os bens naturais do planeta sem pensar no futuro trágico de seus descendentes. Onde estão os grandes líderes? Onde estão os referenciais?
Cazuza e Frejat com sua música “Ideologia”, exemplificam a angústia de sua geração:
Meu partido/É um coração partido/E as ilusões/Estão todas perdidas/Os meus sonhos/foram todos vendidos/Tão barato que eu nem acredito/Ah! Eu nem acredito.../Que aquele garoto que ia mudar o mundo/Mudar o mundo/Freqüenta agora as festas do "Grand Monde”.../Meus heróis morreram de overdose/Meus inimigos estão no poder/Ideologia!/Eu quero uma pra viver/Ideologia!/Eu quero uma pra viver.../O meu prazer agora é risco de vida/Meu sex and drugs não tem nenhum rock'n'roll/Eu vou pagar a conta do analista/Pra nunca mais ter que saber quem eu sou/Ah! Saber quem eu sou.../Pois aquele garoto que ia mudar o mundo/Mudar o mundo/agora assiste a tudo/Em cima do muro/Em cima do muro...
O homem vem sofrendo as conseqüências daquilo que ele mesmo causou. Sem referências, sofre as seqüelas do desmoronamento do seu mundo simbólico. Está à deriva, sem a âncora edipiana, desamparado e sofrendo. Esse sofrimento se deflagra na depressão, no pânico, no tédio, na compulsão e nas famosas “personalidades limítrofes”. (PEREIRA, apud GRASSI, 2004, p.13.)
Como então com tão poucos referenciais o homem contemporâneo se estrutura? Será possível se tornarem viris, másculos, homens por si sós? É possível comprar potência em uma farmácia? Esse é o paradigma da masculinidade na atualidade.
A impotência do homem contemporâneo sem referências pode ser expresso no fracasso sexual? Será que as promessas de realização sexual através de uma droga licita resolverão o sentimento de incompletude? Será que essa ferida exposta pode ser remediada?
E o que dizer sobre as mulheres contemporâneas? Será que elas possuem sua parcela de contribuição para a falta de referências masculinas? Para Mário Eduardo Costa Pereira no Prefácio ao livro de Maria Virgínia Filomena Cremasco Grassi: “Psicopatologia da disfunção erétil: A clínica psicanalítica do impotente” trata-se de:
[...] mais do que uma ânsia ou terror suscitados pela mulher contemporânea, freqüentemente vividos como completa e não-castrada, a impotência masculina nos tempos atuais tem ligação com o horror suscitado pelo desejo sem mediação, de um mergulho sem limites no oceano primordial feminino. O sintoma revela-se assim, mostra-o bem o livro, como estratégia de proteção desse homem contemporâneo, impotente de suas referências fálicas, contra o fascínio de um fantasma de fusão regressiva na idealizada mulher, devoradora/protetora dos pequenos homens desamparados.(PEREIRA, apud, GRASSI, p.14)
Será que já estamos vivendo o “pós-patriarcado”? Será que a preponderância do poder fálico está ruindo? As mulheres já se tornaram 50% da força de trabalho, dividem os cuidados da casa e dos filhos com seus parceiros, homens e mulheres tomam decisões por consenso e o poder não está mais nas mãos do patriarca. As mulheres estão se emancipando e com isso os paradigmas da nossa sociedade estão mudando. 
Essas são as mulheres da atualidade, são aquelas que ameaçam os homens com uma conduta nada subserviente, elas são as mães, são as esposas, as profissionais, são as batalhadoras... Completas? Não-castradas? Não podemos afirmar... Entretanto sabemos que essas mudanças ameaçam o universo masculino instituído ao longo dos anos.
Que relação existe entre a falta de referências masculinas da sociedade contemporânea, a histeria, a potência do homem e o fracasso sexual?
A falta de referências masculinas da sociedade contemporânea só reforça a falha identificatória característica da histeria. Para a Psicanálise o processo identificatório é de suma importância, é a partir do processo de internalização do “Outro”; do “Mundo” que o sujeito se constitui e se transforma.
Freud em “A dissolução do Complexo de Édipo”, estabelece a diferença entre “investimento do objeto” e “identificação”. O Complexo de Édipo oferece à criança dois caminhos. Ela pode colocar-se no lugar do pai, para poder ter sexualmente a mãe ou no lugar da mãe para ter o pai. Na impossibilidade de realizar essas escolhas, em função da interdição simbolizada pela “castração”, os investimentos são substituídos pela introjeção da lei paterna e da dessexualização das tendências libidinais existentes, dando lugar ao superego.
Sobre isso descreve Freud (1924):
As catexias de objeto são abandonadas e substituídas por identificações. A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto, defendendo assim o ego do retorno da catexia libidinal. As tendências libidinais pertencentes ao complexo de Édipo são em parte dessexualizadas e sublimadas (coisa que provavelmente acontece com toda transformação em uma identificação) e em parte são inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeição. Todo o processo, por um lado, preservou o órgão genital — afastou o perigo de sua perda — e, por outro, paralisou-o — removeu sua função. Esse processo introduz o período de latência, que agora interrompe o desenvolvimento sexual da criança.
Não vejo razão para negar o nome de ‘repressão’ ao afastamento do ego diante do complexo de Édipo, embora repressões posteriores ocorram pela maior parte com a participação do superego que, nesse caso, está apenas sendo formado. O processo que descrevemos é, porém, mais que uma repressão. Equivale, se for idealmente levado a cabo, a uma destruição e abolição do complexo. Plausivelmente podemos supor que chegamos aqui à linha fronteiriça — nunca bem nitidamente traçada — entre o normal e o patológico. Se o ego, na realidade, não conseguiu muito mais que uma repressão do complexo, este persiste em estado inconsciente no id e manifestará mais tarde seu efeito patogênico. (FREUD, 1924, p.05)
Segundo Grassi (2004) no “Estádio do espelho” a criança se identifica com o que supõe ser o desejo da mãe, e se torna o falo imaginário dela, preenchendo o vazio da mesma. Com a entrada do pai, como rival à simbiose entre mãe e filho, a criança abandona a posição de assujeito e se torna um sujeito desejante. O interdito paterno abre a possibilidade para o indivíduo ter prazer, no caso dos meninos, a promessa de virilidade no tempo certo com as mulheres certas, permitidas. Chegamos assim, ao entendimento de que se a castração não for bem sucedida encontraremos uma falha identificatória.
Voltando a questão da relação existente entre a falta de referências masculinas da sociedade contemporânea e a histeria, esta seria então, a resolução do complexo de Édipo com a entrada do interdito paterno, a castração.
Como relacionar essa questão à potência do homem? Para Grassi (2004) citando Lacan:
Problemas com a castração remetem-nos diretamente à psicopatologia, pois em todas as neuroses, e principalmente na histeria, considerada a principal neurose desde Freud, a questão é com a castração. Em Lacan (1972-1973): “Para o homem, a menos que haja castração, quer dizer, alguma coisa que diga não à função fálica, não há nenhuma chance de que ele goze do corpo da mulher, ou, dito de outro modo, que ele faça o amor.”(GRASSI, 2004, p.136)
Para Nasio (1991), o histérico vive um paradoxo na sua vida sexual, de um lado vive seu corpo não-genital com uma carga erótica excessiva e dolorosa e por outro lado sua zona genital apresenta uma inibição. Em decorrência desse paradoxo, a vida sexual do histérico, é marcada pela insatisfação. A angústia de perder seu falo aumenta proporcionalmente à dúvida de ser homem ou mulher. Quanto maior for a dúvida quanto a sua identidade sexual maior será o apego ao falo e maior será a angústia. Em momentos de muita angústia aparecem os sintomas causadores do sofrimento.
A disfunção erétil pode ser um sintoma defensivo contra a idéia da relação sexual. Anestesiando seu pênis e “falicizando” globalmente seu corpo ele torna sua zona genital esvaziada e desinvestida de afeto, enquanto o seu corpo não-genital se excita e se organiza como um poderoso falo, narcísico, sedutor e sofrido. O histérico abre mão do falo para sê-lo. Ele se torna no falo que faltava em sua mãe, na fantasia de castração. Esse homem histérico sofre por ter sido transformado no falo do “Outro” castrado.
A falta de ereção é uma defesa. Uma renúncia ao gozo da penetração. A penetração é uma ameaça ao falo. A impotência surge nesse momento, no momento da reatualização, em que o homem sente o medo de desintegrar seu ego caso perca seu falo na penetração, contudo, ele precisa penetrar a mulher desejada, a mulher desejante e perigosa como na sua fantasia infantil inconsciente, diante da mãe castrada. A angústia de castração é então convertida em inibição sexual e insatisfação, da qual ele se utiliza para aplacar a ameaça de sucumbir ao gozo.
Como ele não aceita a castração, fica impossibilitado de realizar identificações masculinas e femininas, assim sendo ele permanece psiquicamente bissexual. O gozo que o remete ao proibido apresenta-se sob a marca da impotência que, pode ou não, se manifestar como uma disfunção erétil.
Todo histérico é impotente? Cabe aqui outra questão. O que é ser impotente?
Ribeiro Alves (2001) refere-se à equação simbólica psicanalítica para ilustrar a “potência” masculina, para além do desempenho peniano:
A potência masculina, para a psicanálise, não se reduz à força mecânica do membro masculino; ela se coloca, sobre tudo, na equação simbólica: pênis = falo. A valorização do pênis-falo dá-se a partir da suposição da castração da menina, ou seja, de um não reconhecimento da vagina como outro órgão sexual. Mas isto custa um preço ao menino – o preço da ameaça de castração.
A impotência não se resume a uma disfunção erétil. A impotência fala de uma falta, de uma insatisfação que caracteriza e determina toda a vida do neurótico. A impotência é a sensação de “nada posso fazer”. O que seria isso? Seria o sofrimento diante do desejo do outro que ele não pode satisfazer já que o gozo para ele é proibido e assustador. Então todo histérico se sente impotente mesmo que não tenha uma disfunção erétil. Homens ou mulheres impotentes perante o paradoxo de sua existência doentia, diante da assustadora lembrança que o recalque deixou escapar. O gozo incestuoso reprimido encontrando destino no gozo sintomático escolhido.
Marly Lopes de Morais
Referências:
1 - ALVES apud GRASSI, 2004, p. 109.
2 - NASIO, 1991, p. 60.
3 - NASIO, 1991, p. 44.
4 - NASIO, 1991, p. 44.
5 - MURARO, 2000, p. 181 à 191.
6 - Personalidade limítrofe é o mesmo que personalidade borderline. Pelo DSM.IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais) da Associação Norte-Americana de Psiquiatria, trata-se de um transtorno de Personalidade caracterizado por um padrão comportamental de instabilidade nos relacionamentos interpessoais, na auto-imagem e nos afetos. Há uma acentuada impulsividade, a qual começa no início da idade adulta e persiste indefinidamente.
7 - Letra de “Ideologia”, de autoria de Cazuza e Frejat, música do Álbum com o mesmo nome, gravado pela Poligram em 1998.
8 - Mário Eduardo Costa Pereira no Prefácio ao livro de Maria Virgínia Filomena Cremasco Grassi: “Psicopatologia da disfunção erétil: A clínica psicanalítica do impotente” fala com propriedade sobre a crise de identidade masculina na contemporaneidade. 
9 - NASIO, 1991, p.77.



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