Bertha von Papenheim, mais conhecida como Anna O.
O termo “histeria” é muito antigo. Remonta a Hipócrates, médico da Antiguidade considerado o pai da medicina. Histeria deriva do grego “hyster” que quer dizer útero. Hipócrates acreditava que a causa da histeria se originava de alguma alteração uterina: o útero deslocar-se-ia no interior do corpo da mulher, afetando o funcionamento dos outros órgãos e causando os sintomas devido à pouca atividade sexual. O tratamento recomendado consistia na inalação de vapores e fumaças produzidas pela queima de produtos exóticos e manobras físicas com o objetivo de fazer o útero retornar ao seu local. Cabe ressaltar que, naquela época, esses quadros eram associados à abstinência sexual, assim sendo, em casos mais graves, era indicada a introdução de uma espécie de "consolo" embebido em substâncias perfumadas, na vagina da mulher. (Dados coletados na Bibliomed, do artigo Crises de Histeria – características, escrito pela Equipe Editorial Bibliomed em 05 de julho de 2007. Disponível em: http://boasaude.uol.com.br/lib/showdoc.cfm?LibCatID= -1 & Search = histeria & LibDocID = 5120)
Grassi (2004) relata que Pierre Briquet, a partir de 1859, contestou a teoria da gênese uterina da histeria, que nessa época passa a ser considerada uma “neurose do encéfalo” que resultava numa maior sensibilidade do sistema nervoso. Segundo essa teoria, a mulher era mais predisposta à histeria por ser mais sensível que o homem pois seu encéfalo era mais influenciado pelas emoções.
De acordo com Freud (1893), a compreensão da histeria começou com os trabalhos de Charcot e da escola do Salpêtrière. Até então, as histéricas eram ridicularizadas, chamadas de teatrais e exageradas. Charcot, na primeira metade dos anos oitenta, dedicou-se ao estudo das “crises”, da “neurose maior”, como os franceses chamavam a histeria na época. Essas “crises” caracterizavam-se por sintomas como: ausências, alucinações, estados de êxtase, mudanças de humor, dissociação da personalidade, convulsões epileptóides, contrações, contraturas, anestesias, hiperestesias, paralisias, problemas de visão, audição, olfato, bulimias, anorexias etc. Charcot para explicar sua teoria do “trauma”- que ainda não era de origem sexual - utilizava técnicas de hipnose para reproduzir a “crise” induzindo, assim, os sintomas. Ele chamava essas “crises” de “estigmas histéricos”.
Segundo Freud, em 1888, a histeria era:
[...] uma neurose no mais estrito sentido da palavra — quer dizer, não só não foram achadas nessa doença alterações perceptíveis do sistema nervoso, como também não se espera que qualquer aperfeiçoamento das técnicas de anatomia venha a revelar alguma dessas alterações. A histeria baseia-se total e inteiramente em modificações fisiológicas do sistema nervoso; sua essência deve ser expressa numa fórmula que leve em consideração as condições de excitabilidade nas diferentes partes do sistema nervoso. Uma fórmula fisiopatológica desse tipo, no entanto, ainda não foi descoberta; por enquanto, devemo-nos contentar em definir a neurose de um modo puramente nosográfico, pela totalidade dos sintomas que ela apresenta... (FREUD, 1888, p.02)
Para Freud, a reprodução dos sintomas histéricos realizada por Charcot, em mulheres sob hipnose, salientava o aspecto psíquico da doença. (As investigações clínicas de Charcot, mais tarde, foram retomadas por seu discípulo, Pierre Janet, Breuer e outros.)
Sobre esse fato, Freud escreve:
[...] através de uma sólida cadeia de argumentos, que essas paralisias eram o resultado de idéias que tinham dominado o cérebro do paciente em momentos de disposição especial. Desse modo, o mecanismo de um fenômeno histérico foi explicado pela primeira vez. Essa amostra incomparavelmente arguta de investigação clínica foi depois retomada por seu discípulo, Pierre Janet, assim como por Breuer e outros, que desenvolveram a partir dela uma teoria da neurose que coincidia com a visão medieval — depois de eles terem substituído o “demônio” da fantasia clerical por uma fórmula psicológica. (FREUD, 1893, p. 08)
No mesmo período em que Charcot trabalhava com as paralisias histéricas traumáticas, Breuer tratava uma cliente, que se tornaria um caso importante na história da histeria, Anna O.. Freud trabalhava com Breuer ainda utilizando a hipnose, mas seus casos eram de histeria comum e não de histeria traumática.(FREUD, 1893, p. 14)
Freud fala da relação entre histeria e sexualidade, pois ele acredita que algum evento traumático acontecido na infância poderia ser o causador. Sua “teoria do trauma de sedução” postula o surgimento da histeria como uma neurose em três tempos. O indivíduo passaria de forma passiva de uma vivência de caráter sexual promovida por um adulto ou uma criança mais velha, sem dar a esse fato algum significado, embora tivesse ocorrido uma situação de prazer. Quando próxima à puberdade, ela lembraria do fato e, acompanhado à lembrança, teria sensações prazerosas que dariam o significado moral ao ato que, assim levariam ao recalcamento do mesmo. Esse recalque, sem sucesso completo, permitiria que as sensações voltassem transformadas em desejo, camuflado de sintoma. O próprio Freud em carta escrita a Fliess, datada de Viena, 21 de setembro de 1897, contesta sua teoria: “[…] Confiar-lhe-ei de imediato o grande segredo que lentamente comecei a compreender nos últimos meses. Não acredito mais em minha neurótica [teoria das neuroses]”. (FREUD, 1892, p.01) Esse fato se dá quase simultaneamente à descoberta do complexo de Édipo feita em sua auto-análise (cartas 70 e 71 de 3 e 15 de outubro), que o levou ao reconhecimento de que as moções sexuais agiam normalmente nas crianças de tenra idade, sem estimulação externa, completando, desta maneira, sua teoria sexual. (FREUD, 1905, p. 03.) Freud, no entanto, não descarta sua primeira elaboração, mas não crê que o seja uma regra geral. Ele percebe que o trauma pode ocorrer sem que a sedução ou o abuso sejam factuais, podendo ser de origem fantasiosa infantil. Partindo dessa hipótese Freud escreve os “Três ensaios sobre a sexualidade” em 1905. (FREUD, 1905, vol. 53)
Nesse momento de sua obra ele conceitua a libido e escandaliza a todos com a importância que dá à sexualidade infantil, propondo que esta possui a mesma natureza da sexualidade do adulto, sendo, contudo diferente em outros aspectos. Assim, a histeria resultaria do conflito entre os desejos sexuais infantis, edipianos, e as defesas do ego.
No texto “Sexualidade feminina” escrito em 1931, Freud ressalta a mãe pré-edipiana no desenvolvimento psicossexual e no nascimento da neurose em meninos e, especialmente, em meninas, propondo a causa da histeria para além de questão edipiana. Essa concepção não é muito aceita, pois Freud passa a formular que a raiz do sintoma histérico estaria antes da formação do complexo de Édipo, que até então, era o “complexo nuclear das neuroses”. Na fase pré-edípica, a criança experimentaria prazer com os cuidados da mãe e, assim, começaria a construir fantasias de sedução relacionadas a ela. Na menina essas fantasias seriam transferidas ao pai, apesar de, desencadeadas pela mãe. Essa então poderia ter sido a última teoria proposta por Freud com relação à origem da histeria.
Segue um trecho do texto onde Freud introduz a questão:
Na verdade, tínhamos de levar em conta a possibilidade de um certo número de mulheres permanecerem detidas em sua ligação original à mãe e nunca alcançarem uma verdadeira mudança em direção aos homens. Assim sendo, a fase pré-edipiana nas mulheres obtém uma importância que até agora não lhe havíamos atribuído. (FREUD, 1931, p.03)
Encerrando este item, cabe citar a “Conferência XXXII”, de 1931 sobre feminilidade, onde Freud retoma o tema da “mãe pré-edipiana” e encerra seu texto deixando as seguintes palavras:
Referências:Isto é tudo o que tinha a dizer-lhes a respeito da feminilidade. Certamente está incompleto e fragmentário, e nem sempre parece agradável. Mas não se esqueçam de que estive apenas descrevendo as mulheres na medida em que sua natureza é determinada por sua função sexual. É verdade que essa influência se estende muito longe; não desprezamos, todavia, o fato de que uma mulher possa ser uma criatura humana também em outros aspectos. Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem os poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e mais coerentes. (FREUD, 1931, p. 14)
1 - GRASSI, Maria Virgínia Filomena Cremasco, Psicopatologia e disfunção erétil: A clínica psicanalítica do impotente. São Paulo: Escuta. 2004.
2 - 26. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Caso 1 – Srta. Anna O. (Breuer). Rio de Janeiro: Imago. 1893
3 - 30. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Histeria. Rio de Janeiro: Imago. 1888. Vol. I.
4 - 28. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: uma conferência. Rio de Janeiro: Imago. 1893. Vol. II.
5 - 29. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Carta 69. Rio de Janeiro: Imago. 1892. Vol. I.
6 - 24. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Três ensaios sobre a sexualidade. Rio de Janeiro: Imago. 1905. Vol. IV.
7 - 13. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Conferência XXXII - Feminilidade. Rio de Janeiro: Imago. 1931. V. XVII.



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