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Psicóloga clínica, especialista em teoria e clínica psicanalítica. E-mail para contato: mlmpsicanalise@gmail.com

1 de jan. de 2010

O "Mal": A sombra arquetípica.




 
O "Mal", a sombra arquetípica, continua sendo um mistério tanto para o crente quanto para o descrente. O "Mal" é pertubador, paralisante, incontrolável, inominável, intrigante e impossível de evitar.

O Cristianismo ordenou teologicamente a doutrina da "Privatio Boni", que diz ser o "Mal" uma privação do "Bem". Calcado nesta doutrina está a do "Sumo Bonum", onde Deus é o " Sumo bem" e criou apenas as coisas boas, as coisas más são as que se afastaram do bem ou onde o bem foi diminuido. Aqui o terrível e ameaçador "Mal" é diminuido e controlado para tranquilidade da cosciência do ser humano. Assim o Cristianismo tentou lidar com a questão do "Mal", isolando-o e negando-o tanto na Teologia "Privato Boni", quanto no dia-a-dia dos indivíduos.

O aparecimento da doutrina do "Summum Bonum" tem origem em um passado bem distante e é bem provável que tenha sido a origem da doutrina da "Privatio Boni". Encontramos registros sobre essas doutrinas em Basílio Magno (330-3790), em Dionísio Areopagita (segunda metade do século IV) e em Santo Agostinho mas, não é possível afirmar que essas doutrinas tiveram origem nesta data, é bem provável que sejam mais antigas. (Bonfatti, 2004)

Estes entendimentos teológicos estão tão enraizados no senso comum que poderíamos dizer que, do ponto de vista psicológico, elas fazem parte do nosso cotidiano, devido ao nosso legado cristão na cultura ocidental.

Segundo Bonfatti:

"Apesar de não haver nas igrejas cristãs uma concentração na problemática do Mal, esta não foi deixada de lado. Ao contrário, sempre esteve presente entre os teólogos cristãos, independentemente da época, autor ou influência filosófica". (Bonfatti;2004)

Assim, podemos perceber que a Teologia Cristã ao abraçar para si estes ensinamentos, realça a seguinte lógica: Deus - o todo bem - só produz o bem, logo não poderia ter criado o "Mal"; então o "Mal" só pode vir do homem, pois o homem pode ser privado ou diminuido do bem.

Quanto a esse conceito, cabe muito bem citar Nietzsche, quando este diz que: "Somos muito injustos com Deus. Não lhe permitimos nem pecar".

Conclui-se com o paragrafo acima que o "Mal" vem sendo negado pela teologia cristã, pois se o "Mal" é posterior ao bem, não possui substância e existência própria, só podemos concluir que ele não existe.

Esta afirmação é verdadeira? Talvez a existência dele seja mal compreendida. Jung (1982) diz que, mesmo que não possuíssemos nenhuma imaginação para o "Mal", ele ainda assim nos possuiria, e isso, nos fez compreender o que nos ocorreu, nós não procuramos o "Diabo", ele é que veio até nós.

Nem todos concordam com a idéia de que o "Mal" é um elemento permanente da espécie humana. Desde Santo Agostinho existe a idéia de que o mal nada mais é que a ausência do bem. Essa idéia sugere que o "Mal" poderia ser erradicado por boas ações. 

Segundo Jung, no seu livro Aion (1982), essa idéia não procede, pois diz ele:

"Há uma tendência, que existe desde o princípio, de dar prioridade ao bem e de fazê-lo com todos os meios à nossa disposição, sejam eles adequados ou inadequados... a tendência a sempre aumentar o "Bom" e diminuir o "Mal". A "Privatio Boni" talvez seja uma verdade metafísica. Não tenho a menor pretensão de julgar esse assunto. Insisto apenas em afirmar que, no nosso campo de experiência, branco e preto, claro e escuro, bom e mal, são opostos equivalentes que sempre implicam um o outro" (Jung; 1986)

Fazendo um retorno ao passado podemos ressaltar que a divindade Judaico-Cristã vem mudando suas características.

Segundo C. G. Jung, a divindade Judaico-cristã passou por uma transformação, e podemos compreender como esta transformação antecipa uma alteração histórica na consciência ocidental mediante as mutações ocorridas desde a idéia de Javeh, passando pela concepção de um Deus cristão e da modernização desse Deus na figura de Cristo, como se o homem tivesse esperado para poder enxergar a totalidade da divindade. A priori pode parecer que os homens haviam se livrado da escuridão, do inconsciente, mas o que brotou foi um monoteísmo unilateral: Deus havia se desprovido de suas características ameaçadoras e calamitosas e se tornara o  "Summum Bonum".

Segundo Fuentes, temos que:

"... o "Mal", era, inicialmente, deflagrado pela mão esquerda de Javeh, além do que, o próprio Javeh operava através de inverções tais como a exigência à Abraão para que matasse o seu próprio filho Isaac, desobedecendo o mandamento "não matarás", ou como na história de Jacó, onde este, ludibria seu irmão Esaú, e também o pai. Ele luta contra um anjo durante toda a noite e é ferido na coxa. Jacó exige ao anjo que se revele, este o abençoa, estão Jacó vê a sua face e vê que é Deus. Com isso, tornou-se um iniciado e recebeu um novo nome: Israel, que significa, aquele que lutou contra o Senhor. É com  esses homens que Deus fará uma aliança, os terá como "o filho eleito" e dará sua proteção. Mas não nos enganemos, pois a natureza dessa aliança com Deus dignificava responsabilidade, não privilégio. Ou seja, num nível psicológico, esas experiências requerem uma atitude moral do indivíduo que com elas se relacionam." (Fuentes, 2004)

Podemos concluir que essa metamorfose da divindade fez com que o homem perdesse o direito de escolher entre o bem e o mal e com isso perdeu a responsabilidade sobre as suas escolhas.

Segundo Jung:

"... o critério da ação ética não pode consistir no fato de que aquilo que é considerado bom tome caráter de um imperativo categóico; inversamente, o que é considerado mau não deve ser evitado de modo absoluto." (Jung; 1984)

A negação do mal é realmente mais maléfica do que o mal em si. Negando-o perdemos o direito de escolher entre o bem e mal e, assim, perdemos a responsabilidade sobre as nossas escolhas.

Nós criamos o "Mal", a sombra coletiva, para dar conta do "Mal" que negamos dentro de nós. Se aceitássemos o "Mal" como uma característica que deve ser trabalhada, inerente à natureza humana, poderíamos aceitá-la e integrá-la através dos canais expressivos pelos quais a energia psíquica pode encontrar um sentido de finalidade e um valor significativo para a vida humana. Desta forma, o potencial das manifestações agressivas poderiam  ser  canalizado, criativamente, através de atividades artísticas, esportivas, laborais e lúdicas. Desta forma, é possível empregar a agressividade humana, evitando os males produzidos em função de uma repressão ignorante.

Se deres as costas à luz, nada mais verás além do que tua própria sombra..."
(Autor desconhecido)

Esse é um dos capítulos da mononografia: "A importância das representações psíquicas do Mal e suas influências no processo de desenvolvimento de individuação", de autoria de Marly Morais.


Bibliografia:

  • BONFATTI, Paulo. A Questão do Mal: Uma Abordagem Psicológica Junguiana. Site: http://www.rubedo.psc.br/, de dezembro/2004.
  • FUENTES, Lygia Aride. O Diabo Fascinosum. Site: http://www.rubedo.psc.br/, de dezembro/2004.
  • JUNG, C.G. O homem e seus símbolos. Trad. Maria Lúcia Pinho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira [s.d.]
  • _________. Aion - Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Trad. Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, O.S.B. Petrópolis: Vozes, 1982.V. IX/2. (Obras Completas de C.G. Jung)
  • _________. Psicologia da religião ocidental e oriental. Trad. Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, O.S.B. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1983. V. XI. (Obras Completas de C. G. Jung)

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