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Psicóloga clínica, especialista em teoria e clínica psicanalítica. E-mail para contato: mlmpsicanalise@gmail.com

25 de nov. de 2009

Então Freud, me explica! Como educar um filho?



Então Freud, me explica! Como educar um filho?

Não estou escrevendo esse texto com a pretensão de ensinar aos pais como educarem seus filhos, estou apenas compartilhando a minha angústia, a angústia de uma mãe que erra, como todas as outras, tentando acertar...

Comecei minha trajetória materna, ensinando o meu filho a amar seu corpo, a reconhecer todas as suas partes e usá-las de forma consciente, saudável e sem culpa.

A alimentação, pretendia a mais saudável, muito leite materno, frutas, verduras, e legumes.

Outro ponto importante foi a questão dos "limites", ensinei-o o que significava o "não" desde cedo.

Sobre o amor... Ah... O amor... ensinei-o a amar as pessoas, a natureza e a si mesmo.

Ensinei-o a cuidar dos seus brinquedos e compartilhá-los com seus amigos...

Enfim, levei-o para a Creche e achei que lá ele iria aprender a conviver com outras crianças e a desenvolver sua curiosidade e criatividade, mas, comecei a ter problemas...

Meu filho que quase nunca chorava, que era tranquilo e afetuoso, não suportava o choro das outras crianças... Ele teve que ficar com crianças maiores e com isso surgiu uma tristeza nele, ele tinha uma cabecinha boa pra estar com os mais velhos, mas, não tinha a mesma habilidade motora.

Fui em busca de escolas que tivessem a sensibilidade para entendê-lo, um lugar com mais sorrisos do que choros... Onde ele pudesse estar com as crianças da mesma idade e poder se desenvolver junto com elas...

Tentei uma outra creche... Mas lá, disseram que meu filho tinha problemas... E qual era o problema? Ele não conseguia ficar sentado de cabeça baixa, esperando os amiguinhos terminarem os deveres. Ele tinha apenas 3 anos!!! Como assim? Troquei de creche novamente.

Bom, pra não estender muito a prosa... Percebi que os educadores trabalham com um padrão de criança, padrão baseado na maioria. Nossos  filhos precisam ser como a maioria. Não podem ser diferentes, nem pra melhor, nem pra pior.

Assim, fui percebendo que os valores que eu estava trasmitindo ao meu filho não estavam de acordo com os padrões da maioria e, assim, meu fiho se sentia e era tratado como um menino "esquisito".

Vou dar uns exemplos do que é ser "esquisito":

1- Ele era muito carinhoso, com todos. Abraçava meninas e meninos... mas, começou a se sentir rejeitado. A maioria das crianças não recebiam muito bem o toque, e os meninos, mais ainda. Tivemos que ensiná-lo que, é preciso dar carinho com moderação e que, entre meninos os carinhos eram mais moderados. O pai dele o abraçava, andava de mãos dadas com ele e o beijava, mas, com os amigos ele precisaria manter uma certa distância. (AFETO)

2 - Quando ele tinha uns 7 anos, chamou um menino de "Bush". As crianças riram dele, esse era um xingamento "esquisito", e ele foi motivo de chacota. Graças a uma pessoa muito sensível e inteligente, a Coordenadora do Integral, meu filho teve seu dia de glória. Ela organizou uma roda de discussão e perguntou para as crianças se alguma delas sabia quem era o "Bush", como nenhuma criança conhecia o tal cara, ela pediu para que ele explicasse quem era. E então ficou esclarecido que ele chamou o menino de "mau" fazendo referência ao "Senhor da guerra". (CULTURA).

3- Agora, já com 11 anos ele me disse que ficou muito chateado com as tias do Integral. Existe uma regra que ele cumpre a risca, após a aula ir para o integral, imediatamente. Acontece que alguns colegas ficam uns minutos batendo papo e, certa vez, aproveitaram a passagem de um carro promocional e ganharam uma blusa de brinde. Quando chegaram com a blusa uma das professoras desceu para pegar o brinde e meu filho ficou indignado e resmungou comigo: - É... Eles não cumprem as regras e são premiados e eu que cumpro fico sem prêmio. (LIMITES)

4- Ensinamos a ele a não revidar agressões e sim, comunicar ao professor para que ele tome a atitude de punir quem o agrediu, acontece que o nosso filho se tornou o saco de pancadas pois não revidava e as crianças que batiam nele não eram punidas. (PAZ e JUSTIÇA)

E agora eu pergunto? Isso é ser "esquisito"? Que mundo é esse?

Hoje tenho ensinado ao meu filho a se comunicar mais, e a repensar as regras, a questioná-las segundo nossos valores, a não obedecer sem saber a finalidade da ordem e a barganhar quando for do seu interesse, sem que para isso deva prejudicar alguém. Chega de prometer o paraíso, ele ainda é puro, precisa conhecer o inferno que é este mundo. Tenho medo que ele siga as minhas orientações a risca e quebre a cara.

Respeitar e obedecer aos mais velhos pode se tornar um perigo, porque não se pode confiar em todos os adultos, haja vista a pedofilia e o tráfico de drogas que estão em qualquer esquina...

A educação é uma forma de transformar as pessoas naquilo que elas não são. É uma tentativa de tamponar tudo que faz um humano se tornar um sujeito, tornando-o apenas um "assujeito".

Descobri que pra sobreviver nesse mundo sem regras, sem limites, sem paz é preciso ser esperto, então o único escudo protetor para o meu filho é o conhecimento. O conhecimento do bem o do mal, para fazer as melhores escolhas possíveis.

Por que, até quando tentamos fazer diferente, repetimos o mesmo modelo.

Me consola o fato de que mesmo "assujeitados" sempre encontramos uma forma de escapar ao controle. Fico pensando se Deus não torceu pra Eva comer a maçã, provar do conhecimento e se tornar responsável por si mesma.

Eva veio da costela de Adão e nós, com certeza temos origem na transgressão de Eva.

A gente apresenta nosso mundo, o inferno,  pintado de paraíso para as crianças, mas... E se  apresentássemos nosso inferno, tal como ele é? Será  que nossa vida infernal seria ainda pior? Seria possível viver sem promessas e sonhos?

Diante de tais questões, recorro ao meu mestre querido, ausente em corpo, mas eterno na lembrança, para explicar o sentido de educar para Freud.
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[...] Educar para Freud é convidar o homem a ir ao centro mesmo das suas contradições. O resultado deste tipo de educação, fundada nos impasses, não é possível conhecer, já que está só pode ser vislumbrada a partir da ação da exigente Ananke que repentinamente torna o homem um ente em aporia, mas cogitar o intangível, é um dos desafios que o homem tem de enfrentar. Viver a utopia sem a menor certeza de chegar ao fim pode ser inquietante, uma espécie de paixão inútil, sartreana. Mas, possivelmente, não ter saída seja a própria saída. Desse ponto de vista, educar é viver na corda bamba sobre o abismo, é beber bebida nutritiva, mas, por vezes, amarga, é viver o (e no) caos e abstrair a ordem, aprender com os fracaços e descobrir que no fim da caminhada nada havia, se tivermos consciência disso, vale a pena seguir com Freud, embora o risco seja grande, entretanto nunca maior que o da própria vida [...] (Luiz Querolim Neto, 1999, Clínica e educação: Um Sentido Trágico.)

A música não foi escolhida por acaso, essas são as paradas de sucesso do meu filho. Acredite se quiser...

Quem dera todos fossemos "esquisitos"... O mundo seria melhor...

Marly Morais

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