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Psicóloga clínica, especialista em teoria e clínica psicanalítica. E-mail para contato: mlmpsicanalise@gmail.com
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20 de out. de 2011


A histeria masculina



 
Ao escutar um paciente histérico, especialmente um homem, imaginemo-lo como um garotinho assustado, encolhido num canto do aposento, com os olhos arregalados e protegendo a cabeça com as mãos, como que para aparar a violência de um castigo eventual.

J. -D. Nasio

Nos primórdios dos estudos da histeria, acreditava-se que se tratava de uma doença feminina. Durante anos, foi dada muito pouca atenção à histeria masculina. Hoje, a clínica comprova que ela é quase tão freqüente nos homens quanto nas mulheres. O sofrimento histérico da atualidade está mais discreto, raramente encontramos “crises” como as de antigamente, chamadas de “estigmas histéricos”, contudo, o momento histórico-cultural trouxe outras mudanças na vida dos histéricos.
A sociedade contemporânea vive um momento de declínio das referências masculinas. As instâncias paternas, estruturantes, que constituíam a identidade masculina, sofreram uma queda.
A religião, a autoridade, a tradição, a lei paterna; estão desmoronando. As religiões estão sofrendo críticas e questionamentos. Foram descobertas inúmeras atrocidades que a Igreja Católica Apostólica Romana cometia, em nome de Deus. O Protestantismo que questionava os dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana vem abusando da ignorância dos fiés, absolvendo criminosos, fazendo deles pastores e extorquindo dinheiro das massas para aplicar em causa própria. São tantas mazelas mundanas em nome da religião, que esta, como interdito de outrora, abriu espaço para o perdão sem fronteiras. Se Deus perdoa tudo, por que se responsabilizar por atos? Teria então, Deus, deixado de dar limites, deixando de representar a interdição simbólica paterna e se tornado um pai permissivo?
E o que falar das autoridades? Elas deveriam colocar ordem na sociedade, não é mesmo? Os políticos que o povo escolhe para representá-lo, em sua maioria, parecem corruptos. As leis só se aplicam aos menos favorecidos e pouca punição existe para aqueles que não cumprem as regras da sociedade. Guerras são travadas em nome do poder econômico. Chefes de estado insistem em usurparem os bens naturais do planeta sem pensar no futuro trágico de seus descendentes. Onde estão os grandes líderes? Onde estão os referenciais?
Cazuza e Frejat com sua música “Ideologia”, exemplificam a angústia de sua geração:
Meu partido/É um coração partido/E as ilusões/Estão todas perdidas/Os meus sonhos/foram todos vendidos/Tão barato que eu nem acredito/Ah! Eu nem acredito.../Que aquele garoto que ia mudar o mundo/Mudar o mundo/Freqüenta agora as festas do "Grand Monde”.../Meus heróis morreram de overdose/Meus inimigos estão no poder/Ideologia!/Eu quero uma pra viver/Ideologia!/Eu quero uma pra viver.../O meu prazer agora é risco de vida/Meu sex and drugs não tem nenhum rock'n'roll/Eu vou pagar a conta do analista/Pra nunca mais ter que saber quem eu sou/Ah! Saber quem eu sou.../Pois aquele garoto que ia mudar o mundo/Mudar o mundo/agora assiste a tudo/Em cima do muro/Em cima do muro...
O homem vem sofrendo as conseqüências daquilo que ele mesmo causou. Sem referências, sofre as seqüelas do desmoronamento do seu mundo simbólico. Está à deriva, sem a âncora edipiana, desamparado e sofrendo. Esse sofrimento se deflagra na depressão, no pânico, no tédio, na compulsão e nas famosas “personalidades limítrofes”. (PEREIRA, apud GRASSI, 2004, p.13.)
Como então com tão poucos referenciais o homem contemporâneo se estrutura? Será possível se tornarem viris, másculos, homens por si sós? É possível comprar potência em uma farmácia? Esse é o paradigma da masculinidade na atualidade.
A impotência do homem contemporâneo sem referências pode ser expresso no fracasso sexual? Será que as promessas de realização sexual através de uma droga licita resolverão o sentimento de incompletude? Será que essa ferida exposta pode ser remediada?
E o que dizer sobre as mulheres contemporâneas? Será que elas possuem sua parcela de contribuição para a falta de referências masculinas? Para Mário Eduardo Costa Pereira no Prefácio ao livro de Maria Virgínia Filomena Cremasco Grassi: “Psicopatologia da disfunção erétil: A clínica psicanalítica do impotente” trata-se de:
[...] mais do que uma ânsia ou terror suscitados pela mulher contemporânea, freqüentemente vividos como completa e não-castrada, a impotência masculina nos tempos atuais tem ligação com o horror suscitado pelo desejo sem mediação, de um mergulho sem limites no oceano primordial feminino. O sintoma revela-se assim, mostra-o bem o livro, como estratégia de proteção desse homem contemporâneo, impotente de suas referências fálicas, contra o fascínio de um fantasma de fusão regressiva na idealizada mulher, devoradora/protetora dos pequenos homens desamparados.(PEREIRA, apud, GRASSI, p.14)
Será que já estamos vivendo o “pós-patriarcado”? Será que a preponderância do poder fálico está ruindo? As mulheres já se tornaram 50% da força de trabalho, dividem os cuidados da casa e dos filhos com seus parceiros, homens e mulheres tomam decisões por consenso e o poder não está mais nas mãos do patriarca. As mulheres estão se emancipando e com isso os paradigmas da nossa sociedade estão mudando. 
Essas são as mulheres da atualidade, são aquelas que ameaçam os homens com uma conduta nada subserviente, elas são as mães, são as esposas, as profissionais, são as batalhadoras... Completas? Não-castradas? Não podemos afirmar... Entretanto sabemos que essas mudanças ameaçam o universo masculino instituído ao longo dos anos.
Que relação existe entre a falta de referências masculinas da sociedade contemporânea, a histeria, a potência do homem e o fracasso sexual?
A falta de referências masculinas da sociedade contemporânea só reforça a falha identificatória característica da histeria. Para a Psicanálise o processo identificatório é de suma importância, é a partir do processo de internalização do “Outro”; do “Mundo” que o sujeito se constitui e se transforma.
Freud em “A dissolução do Complexo de Édipo”, estabelece a diferença entre “investimento do objeto” e “identificação”. O Complexo de Édipo oferece à criança dois caminhos. Ela pode colocar-se no lugar do pai, para poder ter sexualmente a mãe ou no lugar da mãe para ter o pai. Na impossibilidade de realizar essas escolhas, em função da interdição simbolizada pela “castração”, os investimentos são substituídos pela introjeção da lei paterna e da dessexualização das tendências libidinais existentes, dando lugar ao superego.
Sobre isso descreve Freud (1924):
As catexias de objeto são abandonadas e substituídas por identificações. A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto, defendendo assim o ego do retorno da catexia libidinal. As tendências libidinais pertencentes ao complexo de Édipo são em parte dessexualizadas e sublimadas (coisa que provavelmente acontece com toda transformação em uma identificação) e em parte são inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeição. Todo o processo, por um lado, preservou o órgão genital — afastou o perigo de sua perda — e, por outro, paralisou-o — removeu sua função. Esse processo introduz o período de latência, que agora interrompe o desenvolvimento sexual da criança.
Não vejo razão para negar o nome de ‘repressão’ ao afastamento do ego diante do complexo de Édipo, embora repressões posteriores ocorram pela maior parte com a participação do superego que, nesse caso, está apenas sendo formado. O processo que descrevemos é, porém, mais que uma repressão. Equivale, se for idealmente levado a cabo, a uma destruição e abolição do complexo. Plausivelmente podemos supor que chegamos aqui à linha fronteiriça — nunca bem nitidamente traçada — entre o normal e o patológico. Se o ego, na realidade, não conseguiu muito mais que uma repressão do complexo, este persiste em estado inconsciente no id e manifestará mais tarde seu efeito patogênico. (FREUD, 1924, p.05)
Segundo Grassi (2004) no “Estádio do espelho” a criança se identifica com o que supõe ser o desejo da mãe, e se torna o falo imaginário dela, preenchendo o vazio da mesma. Com a entrada do pai, como rival à simbiose entre mãe e filho, a criança abandona a posição de assujeito e se torna um sujeito desejante. O interdito paterno abre a possibilidade para o indivíduo ter prazer, no caso dos meninos, a promessa de virilidade no tempo certo com as mulheres certas, permitidas. Chegamos assim, ao entendimento de que se a castração não for bem sucedida encontraremos uma falha identificatória.
Voltando a questão da relação existente entre a falta de referências masculinas da sociedade contemporânea e a histeria, esta seria então, a resolução do complexo de Édipo com a entrada do interdito paterno, a castração.
Como relacionar essa questão à potência do homem? Para Grassi (2004) citando Lacan:
Problemas com a castração remetem-nos diretamente à psicopatologia, pois em todas as neuroses, e principalmente na histeria, considerada a principal neurose desde Freud, a questão é com a castração. Em Lacan (1972-1973): “Para o homem, a menos que haja castração, quer dizer, alguma coisa que diga não à função fálica, não há nenhuma chance de que ele goze do corpo da mulher, ou, dito de outro modo, que ele faça o amor.”(GRASSI, 2004, p.136)
Para Nasio (1991), o histérico vive um paradoxo na sua vida sexual, de um lado vive seu corpo não-genital com uma carga erótica excessiva e dolorosa e por outro lado sua zona genital apresenta uma inibição. Em decorrência desse paradoxo, a vida sexual do histérico, é marcada pela insatisfação. A angústia de perder seu falo aumenta proporcionalmente à dúvida de ser homem ou mulher. Quanto maior for a dúvida quanto a sua identidade sexual maior será o apego ao falo e maior será a angústia. Em momentos de muita angústia aparecem os sintomas causadores do sofrimento.
A disfunção erétil pode ser um sintoma defensivo contra a idéia da relação sexual. Anestesiando seu pênis e “falicizando” globalmente seu corpo ele torna sua zona genital esvaziada e desinvestida de afeto, enquanto o seu corpo não-genital se excita e se organiza como um poderoso falo, narcísico, sedutor e sofrido. O histérico abre mão do falo para sê-lo. Ele se torna no falo que faltava em sua mãe, na fantasia de castração. Esse homem histérico sofre por ter sido transformado no falo do “Outro” castrado.
A falta de ereção é uma defesa. Uma renúncia ao gozo da penetração. A penetração é uma ameaça ao falo. A impotência surge nesse momento, no momento da reatualização, em que o homem sente o medo de desintegrar seu ego caso perca seu falo na penetração, contudo, ele precisa penetrar a mulher desejada, a mulher desejante e perigosa como na sua fantasia infantil inconsciente, diante da mãe castrada. A angústia de castração é então convertida em inibição sexual e insatisfação, da qual ele se utiliza para aplacar a ameaça de sucumbir ao gozo.
Como ele não aceita a castração, fica impossibilitado de realizar identificações masculinas e femininas, assim sendo ele permanece psiquicamente bissexual. O gozo que o remete ao proibido apresenta-se sob a marca da impotência que, pode ou não, se manifestar como uma disfunção erétil.
Todo histérico é impotente? Cabe aqui outra questão. O que é ser impotente?
Ribeiro Alves (2001) refere-se à equação simbólica psicanalítica para ilustrar a “potência” masculina, para além do desempenho peniano:
A potência masculina, para a psicanálise, não se reduz à força mecânica do membro masculino; ela se coloca, sobre tudo, na equação simbólica: pênis = falo. A valorização do pênis-falo dá-se a partir da suposição da castração da menina, ou seja, de um não reconhecimento da vagina como outro órgão sexual. Mas isto custa um preço ao menino – o preço da ameaça de castração.
A impotência não se resume a uma disfunção erétil. A impotência fala de uma falta, de uma insatisfação que caracteriza e determina toda a vida do neurótico. A impotência é a sensação de “nada posso fazer”. O que seria isso? Seria o sofrimento diante do desejo do outro que ele não pode satisfazer já que o gozo para ele é proibido e assustador. Então todo histérico se sente impotente mesmo que não tenha uma disfunção erétil. Homens ou mulheres impotentes perante o paradoxo de sua existência doentia, diante da assustadora lembrança que o recalque deixou escapar. O gozo incestuoso reprimido encontrando destino no gozo sintomático escolhido.
Marly Lopes de Morais
Referências:
1 - ALVES apud GRASSI, 2004, p. 109.
2 - NASIO, 1991, p. 60.
3 - NASIO, 1991, p. 44.
4 - NASIO, 1991, p. 44.
5 - MURARO, 2000, p. 181 à 191.
6 - Personalidade limítrofe é o mesmo que personalidade borderline. Pelo DSM.IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais) da Associação Norte-Americana de Psiquiatria, trata-se de um transtorno de Personalidade caracterizado por um padrão comportamental de instabilidade nos relacionamentos interpessoais, na auto-imagem e nos afetos. Há uma acentuada impulsividade, a qual começa no início da idade adulta e persiste indefinidamente.
7 - Letra de “Ideologia”, de autoria de Cazuza e Frejat, música do Álbum com o mesmo nome, gravado pela Poligram em 1998.
8 - Mário Eduardo Costa Pereira no Prefácio ao livro de Maria Virgínia Filomena Cremasco Grassi: “Psicopatologia da disfunção erétil: A clínica psicanalítica do impotente” fala com propriedade sobre a crise de identidade masculina na contemporaneidade. 
9 - NASIO, 1991, p.77.



6 de mai. de 2010

HISTERIA: O sintoma e sua importância



É por que alguém me escuta
 e quer descobrir o enigma dos mal-estares de meu corpo
 que esses mal-estares adquirem um sentido em minha história;
assim, um dia talvez possam desaparecer.


J. -D. Nasio


Durante a leitura sobre a história da histeria é possível perceber que, o que chamou a atenção de todos aqueles que buscaram entendê-la, foram os sintomas por ela produzidos. As paralisias, cegueiras, convulsões e tantas outras manifestações físicas sem causas orgânicas, suscitaram o interesse pela histeria. No sintoma reside o sentido do que o inconsciente quer comunicar. Ele deflagra uma necessidade; contudo, ele é um enigma a ser decifrado, que nunca se consegue explicar prontamente.

Perante o sintoma somos todos como “Édipo” buscando solucionar o enigma da esfinge: “Decifra-me ou devoro-te!”. Édipo conseguiu solucionar o enigma da esfinge e com isso, sem saber, desposou sua mãe e, mais tarde, descobriu que havia matado seu pai. Não agüentando suportar o fardo que o destino lhe impôs, feriu seus próprios olhos e ficou cego. Podemos dizer que ele inconscientemente realizou seus desejos e não suportando essa realidade quis não enxergá-la? (Édipo Rei é uma peça de teatro grega, mais precisamente uma tragédia, escrita por Sófocles por volta de 427 a.C. - J. B. de Mello e Souza Versão para eBooksBrasil.com, disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/edipo.htm)


A importância do sintoma reside nessa característica, ele é uma via de comunicação do psíquico no corpo, entretanto, ele surge para defender os histéricos do desejo recalcado que insiste em se satisfazer, mas a culpa não permite.


A respeito desse mecanismo, Freud explica que a formação dos sintomas neuróticos é tal como a dos sonhos, assim sendo, o sintoma é uma dissimulação da satisfação de um desejo, uma representação com uma “máscara” de satisfação. Sobre isso Freud se refere ao sintoma como uma “formação substitutiva”: “Um sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação instintual que permaneceu em estado jacente; é uma consequência do processo de repressão”.(FREUD, 1926, p.09). O sintoma ocasiona um prazer alternativo e, ao mesmo tempo fica no lugar, simbolicamente, daquilo que podemos chamar de “satisfação real”.


Escutar o inconsciente sempre é o melhor caminho para entender os sintomas ou os sintomas são o melhor caminho pra entender o inconsciente? Que desejo recalcado é esse que insiste em se fazer presente através dos sintomas?


Freud, em sua obra, desenvolveu a teoria do recalcamento em três momentos, a saber: “recalque originário”, “recalque propriamente” dito e o “retorno do recalcado”. O recalque originário é o primeiro momento do recalcamento e tem como resultado a criação de representações inconscientes que sofrem a ação da instância superior e atração por parte dos conteúdos do inconsciente. O “recalque propriamente dito”, é aquele que procura manter afastado da consciência as representações ligadas à pulsão. O “retorno do recalcado” é o momento em que os elementos recalcados conseguem, de uma forma desfigurada, aparecer na consciência através da “formação de compromissos". LAPLANCHE e PONTALIS, 1970, p. 552,558 e 601


O que seria a chamada “formação de compromisso”, para Freud? Trata-se da maneira pela qual o material recalcado tenta ser aceito de forma consciente. Ele retornará no sonho, nos atos falhos e no sintoma. Na verdade ele retornará em qualquer produção inconsciente, contudo, de uma forma irreconhecível. (LAPLANCHE e PONTALIS, 1970, p. 257)


Assim sendo, o sintoma é um produto do recalque, uma satisfação de desejo, uma forma substitutiva de satisfação do desejo sexual infantil recalcado. Ele é uma pista para que possamos entender o que o inconsciente quer comunicar. Ele é uma carta cifrada que esconde o desejo que queremos encobrir, o sofrimento é produzido como uma defesa do ego. No caso do histérico a culpa decorrente da lembrança encoberta que insiste em escapar do recalque dói muito mais que a dor do sofrimento sintomático.


Paradoxal esse ser histérico reclama de seu sintoma, busca ajuda e alívio para sua dor e ao mesmo tempo utiliza essa dor como defesa. Como se sente um histérico sem seu sintoma defensivo? Curado ou desprotegido?


Assim sendo, a psicanálise busca o sentido do sintoma para descortinar o sujeito que reside no inconsciente. Apesar de o sintoma ser de ordem simbólica ele é real. O sintoma histérico não difere de uma patologia orgânica: mesmo não tendo uma causa orgânica ele produz uma doença real.


Não se pode generalizar o sintoma, assim sendo, o trabalho da psicanálise é pesquisar o singular de cada sujeito que aparece na clínica buscando alívio para seu sintoma.


Sempre que a análise se aproxima de decifrar um sintoma, a perseverança do analista é posta em prova. Um bom analista não desiste perante as resistências dos analisandos, pois a resistência nada mais é do que o sinal de que o caminho está correto, a resistência aponta para o recalque, o recalque exige trabalho, e o trabalho requer escuta.


O que para os analistas pode ser um avanço, para o analisando pode ser a eminência de perder as defesas contra uma ameaça assustadora.

Referências:

1 - NASIO, Juan – David, A histeria: Teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1991.
2 - LAPLANCHE E PONTALIS, J.- B. Vocabulário de Psicanálise.Santos: Livraria Martins Fontes. 1970.


2 de mai. de 2010

Histeria: História

 
Bertha von Papenheim, mais conhecida como Anna O. 
O termo “histeria” é muito antigo. Remonta a Hipócrates, médico da Antiguidade considerado o pai da medicina. Histeria deriva do grego “hyster” que quer dizer útero. Hipócrates acreditava que a causa da histeria se originava de alguma alteração uterina: o útero deslocar-se-ia no interior do corpo da mulher, afetando o funcionamento dos outros órgãos e causando os sintomas devido à pouca atividade sexual. O tratamento recomendado consistia na inalação de vapores e fumaças produzidas pela queima de produtos exóticos e manobras físicas com o objetivo de fazer o útero retornar ao seu local. Cabe ressaltar que, naquela época, esses quadros eram associados à abstinência sexual, assim sendo, em casos mais graves, era indicada a introdução de uma espécie de "consolo" embebido em substâncias perfumadas, na vagina da mulher. (Dados coletados na Bibliomed, do artigo Crises de Histeria – características, escrito pela Equipe Editorial Bibliomed em 05 de julho de 2007. Disponível em: http://boasaude.uol.com.br/lib/showdoc.cfm?LibCatID= -1 & Search = histeria & LibDocID = 5120)
Grassi (2004) relata que Pierre Briquet, a partir de 1859, contestou a teoria da gênese uterina da histeria, que nessa época passa a ser considerada uma “neurose do encéfalo” que resultava numa maior sensibilidade do sistema nervoso. Segundo essa teoria, a mulher era mais predisposta à histeria por ser mais sensível que o homem pois seu encéfalo era mais influenciado pelas emoções.
De acordo com Freud (1893), a compreensão da histeria começou com os trabalhos de Charcot e da escola do Salpêtrière. Até então, as histéricas eram ridicularizadas, chamadas de teatrais e exageradas. Charcot, na primeira metade dos anos oitenta, dedicou-se ao estudo das “crises”, da “neurose maior”, como os franceses chamavam a histeria na época. Essas “crises” caracterizavam-se por sintomas como: ausências, alucinações, estados de êxtase, mudanças de humor, dissociação da personalidade, convulsões epileptóides, contrações, contraturas, anestesias, hiperestesias, paralisias, problemas de visão, audição, olfato, bulimias, anorexias etc. Charcot para explicar sua teoria do “trauma”- que ainda não era de origem sexual - utilizava técnicas de hipnose para reproduzir a “crise” induzindo, assim, os sintomas. Ele chamava essas “crises” de “estigmas histéricos”.
Segundo Freud, em 1888, a histeria era:
[...] uma neurose no mais estrito sentido da palavra — quer dizer, não só não foram achadas nessa doença alterações perceptíveis do sistema nervoso, como também não se espera que qualquer aperfeiçoamento das técnicas de anatomia venha a revelar alguma dessas alterações. A histeria baseia-se total e inteiramente em modificações fisiológicas do sistema nervoso; sua essência deve ser expressa numa fórmula que leve em consideração as condições de excitabilidade nas diferentes partes do sistema nervoso. Uma fórmula fisiopatológica desse tipo, no entanto, ainda não foi descoberta; por enquanto, devemo-nos contentar em definir a neurose de um modo puramente nosográfico, pela totalidade dos sintomas que ela apresenta... (FREUD, 1888, p.02)
Para Freud, a reprodução dos sintomas histéricos realizada por Charcot, em mulheres sob hipnose, salientava o aspecto psíquico da doença. (As investigações clínicas de Charcot, mais tarde, foram retomadas por seu discípulo, Pierre Janet, Breuer e outros.)
Sobre esse fato, Freud escreve:
[...] através de uma sólida cadeia de argumentos, que essas paralisias eram o resultado de idéias que tinham dominado o cérebro do paciente em momentos de disposição especial. Desse modo, o mecanismo de um fenômeno histérico foi explicado pela primeira vez. Essa amostra incomparavelmente arguta de investigação clínica foi depois retomada por seu discípulo, Pierre Janet, assim como por Breuer e outros, que desenvolveram a partir dela uma teoria da neurose que coincidia com a visão medieval — depois de eles terem substituído o “demônio” da fantasia clerical por uma fórmula psicológica. (FREUD, 1893, p. 08)
No mesmo período em que Charcot trabalhava com as paralisias histéricas traumáticas, Breuer tratava uma cliente, que se tornaria um caso importante na história da histeria, Anna O.. Freud trabalhava com Breuer ainda utilizando a hipnose, mas seus casos eram de histeria comum e não de histeria traumática.(FREUD, 1893, p. 14)
Freud fala da relação entre histeria e sexualidade, pois ele acredita que algum evento traumático acontecido na infância poderia ser o causador. Sua “teoria do trauma de sedução” postula o surgimento da histeria como uma neurose em três tempos. O indivíduo passaria de forma passiva de uma vivência de caráter sexual promovida por um adulto ou uma criança mais velha, sem dar a esse fato algum significado, embora tivesse ocorrido uma situação de prazer. Quando próxima à puberdade, ela lembraria do fato e, acompanhado à lembrança, teria sensações prazerosas que dariam o significado moral ao ato que, assim levariam ao recalcamento do mesmo. Esse recalque, sem sucesso completo, permitiria que as sensações voltassem transformadas em desejo, camuflado de sintoma. O próprio Freud em carta escrita a Fliess, datada de Viena, 21 de setembro de 1897, contesta sua teoria: “[…] Confiar-lhe-ei de imediato o grande segredo que lentamente comecei a compreender nos últimos meses. Não acredito mais em minha neurótica [teoria das neuroses]”. (FREUD, 1892, p.01) Esse fato se dá quase simultaneamente à descoberta do complexo de Édipo feita em sua auto-análise (cartas 70 e 71 de 3 e 15 de outubro), que o levou ao reconhecimento de que as moções sexuais agiam normalmente nas crianças de tenra idade, sem estimulação externa, completando, desta maneira, sua teoria sexual. (FREUD, 1905, p. 03.) Freud, no entanto, não descarta sua primeira elaboração, mas não crê que o seja uma regra geral. Ele percebe que o trauma pode ocorrer sem que a sedução ou o abuso sejam factuais, podendo ser de origem fantasiosa infantil. Partindo dessa hipótese Freud escreve os “Três ensaios sobre a sexualidade” em 1905. (FREUD, 1905, vol. 53)
Nesse momento de sua obra ele conceitua a libido e escandaliza a todos com a importância que dá à sexualidade infantil, propondo que esta possui a mesma natureza da sexualidade do adulto, sendo, contudo diferente em outros aspectos. Assim, a histeria resultaria do conflito entre os desejos sexuais infantis, edipianos, e as defesas do ego.
No texto “Sexualidade feminina” escrito em 1931, Freud ressalta a mãe pré-edipiana no desenvolvimento psicossexual e no nascimento da neurose em meninos e, especialmente, em meninas, propondo a causa da histeria para além de questão edipiana. Essa concepção não é muito aceita, pois Freud passa a formular que a raiz do sintoma histérico estaria antes da formação do complexo de Édipo, que até então, era o “complexo nuclear das neuroses”. Na fase pré-edípica, a criança experimentaria prazer com os cuidados da mãe e, assim, começaria a construir fantasias de sedução relacionadas a ela. Na menina essas fantasias seriam transferidas ao pai, apesar de, desencadeadas pela mãe. Essa então poderia ter sido a última teoria proposta por Freud com relação à origem da histeria.
Segue um trecho do texto onde Freud introduz a questão:
Na verdade, tínhamos de levar em conta a possibilidade de um certo número de mulheres permanecerem detidas em sua ligação original à mãe e nunca alcançarem uma verdadeira mudança em direção aos homens. Assim sendo, a fase pré-edipiana nas mulheres obtém uma importância que até agora não lhe havíamos atribuído. (FREUD, 1931, p.03)
Encerrando este item, cabe citar a “Conferência XXXII”, de 1931 sobre feminilidade, onde Freud retoma o tema da “mãe pré-edipiana” e encerra seu texto deixando as seguintes palavras:
Isto é tudo o que tinha a dizer-lhes a respeito da feminilidade. Certamente está incompleto e fragmentário, e nem sempre parece agradável. Mas não se esqueçam de que estive apenas descrevendo as mulheres na medida em que sua natureza é determinada por sua função sexual. É verdade que essa influência se estende muito longe; não desprezamos, todavia, o fato de que uma mulher possa ser uma criatura humana também em outros aspectos. Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem os poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e mais coerentes. (FREUD, 1931, p. 14)
Referências:

1 - GRASSI, Maria Virgínia Filomena Cremasco, Psicopatologia e disfunção erétil: A clínica psicanalítica do impotente. São Paulo: Escuta. 2004.
2 - 26. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Caso 1 – Srta. Anna O. (Breuer). Rio de Janeiro: Imago. 1893
3 - 30. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Histeria. Rio de Janeiro: Imago. 1888. Vol. I.
4 - 28. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: uma conferência. Rio de Janeiro: Imago. 1893. Vol. II.
5 - 29. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Carta 69. Rio de Janeiro: Imago. 1892. Vol. I.
6 - 24. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Três ensaios sobre a sexualidade. Rio de Janeiro: Imago. 1905. Vol. IV.
7 - 13. FREUD, Sigmund, Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Conferência XXXII - Feminilidade. Rio de Janeiro: Imago. 1931. V. XVII.
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